quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Sonhos tropicais (1ª Parte)


Um dia de calor, abafado e sem aquele vento necessário ao abanar das saias das beldades que por ali passam. Cada parede esbranquiçada é palco de encostos vagabundos, suados e (des)aperaltados, ao som de batuques e guitarras tropicais. O som é sensual e convida à perda das já poucas indumentárias de um verão eterno. Mas os corpos afastam-se com este calor, digo eu.
Perto do sol alto, as ruas de paralelos mal amanhados ficam vazias. O som, esse, é continuo e a falta de vento deixa-o cair pela calçada, ecoando graves batidas, quentes, ritmadas. Adoro passear por ali, nesses poucos momentos de quase nenhuma, agitação. Olho para cada esquina, cada vão de escadas e imagino peças femininas deste puzzle, para ali deixadas. Gosto de pensar nas saias curtas e folhadas da noite, que sensação vê-las de dia, neste aquário sem água, aquecido pelo mais quente dos sóis.
Na pequena esplanada ali perto, ouvem-se gargalhadas por entre as notas desta música contínua. São os mais velhos que de mãos pousadas nos dados, reclamam vitórias e derrotas contra as cartas. Reis, Damas, Valetes, tudo vale. Até os cães vadios apanham as poucas sombras por debaixo das mesas deste jogo forçado. São espectadores simples que não recusam cada migalha involuntariamente despejada dos gritos dos jogadores.
No andar de cima deste café vivem as voluntárias. Seres adorados, adoráveis, quentes e meigos. Adoro este nome, ou alcunha, as "voluntárias"..que de cabelos apanhados variam por entre as ruas deste posto. Caminham em saltos como se os paralelos fossem lisos, quais chãos milionários de mármores importadas. E ali andam, vistosas, voluntariosas, amorosas, a ajudar quem quer amar. Doces figuras vestidas de branco por causa do sol e peles morenas, banhadas de um suor perfumado.
Sento-me num degrau desta casa, de pernas estendidas para aquela rua. Sujo as calças brancas que visto, não porque gosto, mas porque sim! Porque quero misturar-me entre a multidão. Sou de fora mas por aqui passo momentos. Puxo de um cigarro, apesar do calor, e delicio-me com sorrisos, os meus, de cabeça tombada...observo.




terça-feira, 27 de agosto de 2013

Tanque vazio



Olho para as teclas do meu PC e de seguida para os meus dedos. Já não tenho como. Quero escrever um conto, mas porquê? Para quê? Algures por aí, no tempo, aquele sentido deixou de se fazer. Bolas...e eu que gostava tanto, mas...carrego no teclado e sinto que caminho em areias movediças. Já não me sei exprimir. Parece-me tudo simples demais. Parecem mentiras atiradas ao monitor.
Quero contar-vos uma história, a minha história. Mas até essa deixou de se comprometer...nada espero, por isso não sonho. Isto é, sonho com os sonhos e deles nada retiro. É de um vazio que me incomoda, caramba. De alguma forma quero fazer-me chorar, mas perco antes os sentidos...porque já não sei chorar. E então arregalo as sobrancelhas e paro de escrever...
Sinto o sangue a cair destes dedos doridos e a tecla "delete" está gasta! Está tudo tão vazio, perderam-se as ilusões.
Recordo quando aqui chegava. Depositava tudo e de tudo um pouco. Mas agora as nuvens bloqueiam o sol e a noite já não me trás a lua...está apenas ali, outra vez. E as estrelas, oh...as estrelas, nem para elas olho. E todo aquele fervor e toda aquela esperança e alegria e tristeza e vontade e....sei lá mais o quê? Onde estão? E Grito GRITO!!!!! Porque nada sinto. Afinal. Mas porquê?
Quis perder-me numa só voz, um dia. Numa só estrela. Mas não me perdi. Ganhei, perdi, sei lá. Agora solto suspiros violentos que sabem a água. 
Ao meu lado estão janelas fechadas, de portadas fechadas. Portas fechadas, gavetas fechadas...e já não me pergunto porque não as abro...deixo-as assim, é mais fácil. O dia está lá por fora, ou mesmo a noite, já não sei nem procuro saber, mas estão lá...todos os dias. E todos os dias os (não) vejo...porque para ali estão...como eu.
E por isto (já) pouco escrevo. Porque (já) não sei...não o sinto. Talvez depois, quando houver conserto, qual concerto à meia-noite.



I really don't know clouds...at all


It's Love's illusions that I recall
I really don't know love...at all.

domingo, 28 de julho de 2013

A rapariga dos jeans


Caminha com um sorriso tremido, quando está sozinha. Porque conhece um pouco do mundo, já nele caiu. É de uma beleza sincera e escondida. Aos olhos da multidão é uma flor simples e algo séria, faz de propósito...porque não procura a atenção, consegue-a simplesmente.
Veste uns jeans e uma t-shirt, não precisa de mais. E a face é pintada pelos elementos, creme de um sol de inverno, sem querer parecer. Uns olhos verdadeiros...sim, verdadeiros, que mais dizer?
Vejo-a tilintar enquanto dança sozinha num palco vazio, entre folhas espalhadas pelo Outono. Sorri até entre elas tombar de braços abertos...ali pode sorrir sem medo dos medos que tem.
Já não procura compreender os outros, observa-os. Vive sem exigir nada das montanhas e para elas olha com a força de uma tempestade, imponente, atrevida, capaz de tudo mudar. E mudará.
Reconhece a essência do outro, não a deseja mas compreende-a. E aceita-a. Com medo, sim, quem não treme quando recebe um diamante? Mas usá-lo-á porque é (será) só dela.
E nesse novo mundo, acredita...não porque tem razões, mas porque acredita. Simplesmente. Sabe que amar não pode ter razões, porque as razões mudam com a história. Sente, só! E espera vê-lo na manhã seguinte, apesar do íman do resto do mundo. Ele é chamado porque brilha...e o brilho atrai...trai.
O medo das outras confunde-a, porque sabe... Sabe que o vento leva o seu amor pelo mundo, porque este tem asas, mas tra-lo-á de volta...ao fim do dia, incólume, virgem, só seu. E nisso vive...porque conhece a verdade!
O seu amor é um Homem. Tem a sorte no peito. Simples aos olhos de si próprio, mas confuso no mundo...vêm-no como estrela de uma história de filmes. A sua fé contorna as mesas tombadas...é especial, mas não o entende, sabe-o apenas. E tudo o que faz, faz porque sabe...e porque quer. É rei de uma palestra e nas tribos onde vive alcança o lugar de estrela...intocável. Sim, de facto, O intocável. E disso está farto, o amor da rapariga dos jeans. Quer ser menos mas não sabe. Quer ter menos, também, mas a sua sorte prefere maltratá-lo, ainda assim. E dá-lhe mais. Tem um sonho apenas...encontrar as jeans atiradas para o chão, numa pista de roupas espalhadas até ao leito onde dorme, onde beija, onde sonha...onde ama...a rapariga dos jeans.
E ela é feliz! Tem sonhos de menina e atira-os à cara. Sabe que o desejo move o seu coração. Irracional, simples, verdadeiro....como o ama. Sem saber porquê, mas sem perguntar.





domingo, 14 de julho de 2013

e Deus ri :)

A ti...não sei se te conheço. Quero dizer-te que te espero ao fim do dia, debaixo de um sol poente. O mundo não entende, sabes? Que debaixo de toda a força, debaixo de cada sorriso, está aquele vulto curvado. E tudo o que tem para agarra-se é uma fé constante na premissa que, um dia, apareças...e fiques.
Quero perder-me em ti! Ser o teu canto quando dormes, o espelho quando sorris. És a minha canção favorita e quero cantar-te a vida inteira. Quero aprender-te. Ser o teu melhor amigo e respirar-te cada segundo.
Onde estás? Com quem andas? Quando dormes, alguém te protege e observa?
Eu? Não sei. Já não me lembro de sorrir...mas sorrio a cada segundo. Estranho não é? Porque sorrio na esperança de um dia dar gargalhadas contigo, na roda gigante de uma feira qualquer.
Já perdi tudo, sabes? Mesmo tudo! Mas levantei-me...devagar, até chegar aqui. Mas daqui não saio mais, até te encontrar. Porque já nada sei.
Mas quem sou eu para dizer que um dia aqui estarás? Porque o homem planeia...e Deus ri.


sábado, 13 de julho de 2013

O que quiseres









Sabes? Eu vivo num sítio onde quase tudo acontece. O lixo amontoa-se pelo chão à beira das poucas valetas mas os pássaros são de um laranja incandescente. Fala-se uma língua rápida, bonita e viciante. Os cães vagueiam pelas ruas e procuram refúgio por baixo dos cantos deixados pelo homem. Assim partilho tudo o que sou. Alegre, bem-disposto e ás vezes melancólico...com tudo isto.
O tempo passa e os sonhos ganham formas diferentes. Já pensei correr atrás deles, mas as rugas do caminho são incontroláveis e, aqui, tudo acontece de mãos abertas. Engana-se quem pensa controlar o destino (no qual deixei de acreditar).
Os sons do meu iPod valorizam o abrir dos olhos, pela manhã. Tropeço em expectativas engraçadas. Será hoje? Ou talvez não...até nem importa. É isso mesmo, já não importa. Estou algo cansado de teorias...aqui não se aplicam.
Queres mesmo saber? Os valores estão lá, dentro de cada um e não vão a lado nenhum. É com eles que EU vivo. Tudo o resto são consequências de actos pensados, ou não, mas que moldam cada dia.
Ainda acho uma certa piada ás reacções valentes, ardentes mesmo, das vítimas de si próprias. Dizem de si, contam premissas pelo ar, numa tentativa de auto-compreensão. Depois admiram-se que a mensagem, trabalhada pelo próprio vento e em permanente guerra com a percepção dos demais, torne-se mal conceptualizada por ouvidos que nada de mal têm no seu centro. É isso, só isso. Nada de mais.
Era hora de ver que estamos entre os nossos. Somos pessoas e temos a liberdade de fazer o bem, ou o mal, mas temo-la...à liberdade de agir conforme aos nossos temperamentos irregulares, trabalhados por esta forma de estar...perto ou longe.
Eu aqui fico. Sem grandes esperanças. É que cada segundo traz-me novidades...e as vontades loucas desta manhã dão lugar a outros sabores, novas cores, amores e dissabores. Mas sem medo. No final do dia, se olhares bem para cima, as estrelas de ontem ainda lá estão...apesar de tudo.