segunda-feira, 25 de março de 2013

O outro lado do búzio - Capítulo I


ATÉ UM DIA

De olhos cansados, o velho contava a história. Era um senhor alto, cabelo todo branco já afectado por uma calvice precoce mas que teimava em não ceder. Vestia um colete beije de lã, por cima de uma camisa branca de colarinhos bem engomados pela Deolinda, sua actual companheira de limpezas. Uma mulher delicada, magra e ternurenta, que às segundas e quintas aparecia por umas horas em busca de uns quantos dinheiros, em troca de uma cozinha asseada, colarinhos tratados e dois dedos de conversa.  Qual jogo de cartas de um só naipe, bem se lembrava da sua empregada favorita, muitos anos antes, com o mesmo nome.
Estranhos eventos repetitivos até nos mais leves pormenores.
Olhando pela janela para o brando frio que se fazia sentir, era Novembro no hemisfério Norte, o velho respirava calmamente, deleitado na sua poltrona usada, companheira de leituras e algumas aventuras. Com uma voz suave, algo sumida, recordava momentos. Sim, é isso. Momentos verdadeiros das suas passagens por ali e por aqui. Por aí.
Com alguma emoção contava as histórias. Para quem ali estava, de braços e abraços, junto à lareira da casa nova. E chamava-lhe nova porque todos os anos esta mudava. As paredes, os cortinados, os quadros nas vastas paredes, até a disposição das mobílias. Era assim há tantos anos, que parecia nova. Os parentes mais novos chamavam-lhe, a título de brincadeira, a quinta-dimensão. Pudera, a cada Natal a visão mudava, pareciam estar em diferentes países. Por muito que tentassem subornar a Deolinda, nem esta contava os segredos desse ano. E depois as histórias. Essas, ainda que verdadeiras, pareciam saídas de um filme. Quem viu o Big Fish, com o grande Albert Finney, sabe do que falamos.
Era uma vez um miúdo, começou o velho nesse dia a contar. De caracóis desgrenhados e pele morena, o miúdo expressava um olhar inconstante. Dir-se-ia que sabia alguma coisa, talvez tivesse aprendido cedo demais, quem sabe. Ou então parava no tempo, afinal, para quê crescer? O miúdo parecia saber que os adultos tinham razão. Sim, quando somos miúdos temos momentos de grande felicidade! Completa, despreocupada, sorridente, felicidade e liberdade para a sentir. Temos um só coração, para sentir o que se passa. Mas os adultos, parecem ter dois mais pequenos, saídos de duas metades de um maior que se partiu.
Estava um dia solarengo e a paisagem era de um Outono colorido. Ali, as árvores pintavam o céu de castanho, amarelo e algum vermelho. Era uma terra inclinada, cheia de verdes organizados e casas de madeira. O miúdo, de sweatshirt amarela e umas calças de fazenda aos quadrados, caracóis despenteados e olhar distante, fixava-se na viatura azulada que se preparava para partir.
Podemos pensar que é uma história triste, até. Mas não, o velho sorria apesar da pequena lágrima pousada no olho esquerdo, no fundo é uma história bem feliz.
O carro azul partia com uma família simpática, pai, mãe e um casal de filhos. Ela, mais nova que o miúdo, de feições organizadas, parecia saída de um desenho animado. Era bonita, pensava o miúdo, muito bonita. Ainda hoje é, apesar da idade, pensava o velho. O seu irmão era um rapaz sardento, tímido e de pele muito branca. Naquela altura diziam-se os melhores amigos, o miúdo e aquele jovem de nome Duarte. Sim, estudavam juntos na primária e desde o ano anterior durante a segunda classe, tinham passado a andar sempre juntos. A família do Duarte ia passar uns dias à aldeia de um dos pais, não se sabe bem qual. Saiam no BMW azulado dos pais, carregado de malas e com aquela família, completa. O miúdo, de braços levantados reclamava um curto adeus, até segunda. Vocês vão, eu fico. A minha família, este ano, fica.
De olhos no horizonte, o miúdo via o BMW azulado a desaparecer. Logo depois saia a correr pela rua abaixo em direcção a casa.
Pelo caminho pensava. O miúdo recordava que pouco tempo antes, também ele tinha uma completa. Uma família, isto é. Coisas da vida, habituou-se a dizer. Nunca se rendeu à eterna pergunta - Porquê eu? - não, haveria razões. E de sorriso estendido corria para quem lhe restava. Afinal, após a partida Dela aprendeu que tudo continuava, ainda que diferente, mas continuava. Ela ensinou-lhe que não é adeus, mas até um dia.

(continua)



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